

Publicado em 19/11/2009 - 15h16
A professora da FAU-USP e relatora da ONU, Raquel Rolnik, contou na última quinta-feira, 18 de novembro, sua experiência na relatoria da ONU para cerca de 50 pessoas presentes na Casa da Cidade. A professora tratou em sua missão das políticas de moradia e a situação atual dos EUA pós-crise financeira.
Envolvida com o tema sobre habitação, a relatora iniciou seu trabalho na ONU em junho de 2008. Sua primeira missão, nas Maldivas, envolvia a questão climática e o direito à moradia. Segundo Raquel, o arquipélago visitado sofria uma perda de território devido à elevação do mar, o que acarretava diferentes problemas na sociedade, inclusive no âmbito da questão habitacional.
A ideia de realizar uma missão nos EUA surgiu logo no final de seu primeiro trabalho na ONU, há um ano. Ela buscava um assunto em pauta que poderia explorar e estudar a questão na moradia e justamente nesse momento a crise financeira estourava nos EUA e refletia em todo o mundo.
Segundo Raquel, em seus estudos preliminares sobre a crise ficou evidente que a questão de moradia era o epicentro do assunto. Isso fez com que entrasse em contato com o governo dos EUA para solicitar uma autorização e um convite para dar início à missão.
Foi apenas no início da administração Obama que ela obteve aprovação para a visita. “Essa missão foi muito especial porque ela foi planejada e trabalhada um ano antes de acontecer”, contou Raquel.
A viagem, que envolveu conversas com autoridades governamentais, sociedade civil, ONGs; visita a conjuntos habitacionais, albergues e coleta de dados durou 18 dias e envolveu sete lugares: Nova York, Chicago, New Orleans, Los Angeles e uma cidade periférica a ela, Washington e uma reserva indígena na South Dakota.
Para Raquel Rolnik, a situação atual da moradia nos EUA é consequência de políticas e medidas governamentais do último meio século. Segundo a relatora, a redução de investimento governamental nos conjuntos habitacionais populares, nos benefícios como bolsa-aluguel entre outros subsídios, foram determinantes para que a situação dos cidadãos norte-americanos chegasse a milhões de pessoas sem moradia, vivendo nas ruas e em barracas.
A posição governamental de interferir menos na questão da habitação e moradia, cortando verbas, aliada com a ideia de que esse setor não devia ser uma preocupação do Estado - mas fazer parte da iniciativa privadas – também fez com que entidades públicas que cuidavam da questão habitacional perdessem recursos. O que refletiu na manutenção dos conjuntos e dos abrigos.
A professora da FAU-USP contou que se nos anos
Junto com os cortes de investimento, grande parte dos estados norte-americanos participou do processo de demolições de conjuntos habitacionais para a construção de um número menor de residências populares (em parceria com a iniciativa privada). Essa medida ampliou ainda mais a dificuldade das pessoas conseguirem os benefícios públicos. Segundo a relatora, os abrigos que antes recebiam pessoas solitárias e sem família, hoje estão lotados de grandes grupos familiares, que perderam suas casas devido à execução de hipotecas – uma alternativa encontrada por aqueles que não conseguiam receber qualquer benefício e o fator principal da crise.
Sem a assistência, grande parte dos americanos aderiu a empréstimos de juros altos e grande risco. O não pagamento das dívidas e parcelas da casa resultou na crise imobiliária que, consequentemente, culminou na crise financeira norte-americana.
Raquel contou também as situações particulares de cada cidade visitada, além dos programas e organizações de ajuda para o financiamento e compra da casa própria pós-crise. Após a exposição, a relatora da ONU abriu para perguntas e debates sobre a situação habitacional norte-americana.